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Crescimento econômico de João Pessoa e pressões sobre a infraestrutura urbana

Foto do escritor: Sondagem Paraíba
Sondagem Paraíba
25 de set.
5 min de leitura

Autores:

José Alves B. Neto

Alan Lima da Silva

Wanderleya dos Santos Farias

setembro/2026



João Pessoa atravessa uma fase de maior projeção econômica e intensa transformação urbana. A expansão dos serviços, a atração de novos moradores e investimentos e o avanço da ocupação do território reforçam o papel da capital na economia paraibana. Esse movimento, entretanto, não pode ser examinado apenas pela evolução do produto ou pela capacidade de atrair atividades.

A cidade também passou a conviver com demandas crescentes por saneamento, drenagem, habitação, mobilidade e equipamentos públicos, que se distribuem de maneira desigual entre suas diferentes áreas.

O objetivo deste artigo é relacionar o crescimento recente de João Pessoa às pressões exercidas sobre sua infraestrutura urbana. Para isso, são mobilizados indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a economia e a população municipal, além das diretrizes territoriais e dos problemas reconhecidos pelo Plano Diretor de João Pessoa, instituído pela Lei Complementar nº 169/2024.

A hipótese que orienta a análise é que o dinamismo da cidade ampliou oportunidades, mas ocorreu em velocidade superior à capacidade de universalização e modernização de parte da infraestrutura básica. Os dados do IBGE mostram a elevada concentração da atividade econômica paraibana em João Pessoa.

Em 2023, o município respondeu por 47,6% do PIB somado dos dez maiores municípios do estado, proporção muito superior à de Campina Grande, que ocupava a segunda posição, com 22,2%. Em valores constantes de 2023, o PIB pessoense passou de aproximadamente R$ 24,5 bilhões, em 2010, para R$ 26,1 bilhões, em 2023, acumulando crescimento de 6,7%. A trajetória não foi linear: houve expansão entre 2010 e 2014, perda de dinamismo e retração no período de crise, entre 2015 e 2020, e recuperação de 2020 a 2023. Ainda assim, a capital preservou sua centralidade como polo de investimentos, empregos, consumo e oferta de serviços no estado (IBGE, 2023).

A pressão sobre a infraestrutura torna-se mais evidente quando se observa a dinâmica populacional. Entre 2010 e 2022, João Pessoa passou de 723.515 para 833.932 habitantes, acréscimo superior a 110 mil pessoas e crescimento de 15,3%. Foi a maior expansão relativa entre as capitais nordestinas no período, acima de São Luís, Aracaju, Maceió, Teresina e Natal (IBGE, 2010; 2022). Esse resultado confirma a atratividade da cidade, mas também revela a dimensão do desafio: a incorporação de novos moradores exige que as redes de saneamento, drenagem, transporte, habitação e serviços públicos avancem em ritmo semelhante.

 O crescimento de João Pessoa ocorre por vetores distintos. No eixo litoral, a verticalização e o adensamento imobiliário aumentam a ocupação do solo e a carga lançada sobre redes já existentes. A valorização dessas áreas, associada à presença de turismo, serviços de maior renda e infraestrutura mais consolidada, fortalece a concentração de investimentos no eixo norte-leste.

Esse processo também eleva a impermeabilização do solo, amplia o volume e a velocidade do escoamento superficial e agrava a necessidade de intervenções em drenagem. No vetor sul, o avanço de loteamentos e o espraiamento horizontal prolongam a malha urbana e incorporam áreas antes pouco ocupadas. Bairros como Mangabeira e Valentina exemplificam zonas de expansão demográfica acelerada, nas quais cresce a demanda por esgotamento sanitário, drenagem, transporte e equipamentos sociais. O problema não está na expansão em si, mas na distância entre a velocidade de ocupação e a capacidade de investimento público. O Plano de Ação Imediata citado no material da Prefeitura reconhece que a expansão residencial ocorre em ritmo superior à ampliação da infraestrutura urbana (JOÃO PESSOA, 2024).

A divisão municipal em regiões de planejamento evidencia que os efeitos do crescimento são territorialmente desiguais. Enquanto o eixo norte-leste concentra infraestrutura consolidada, turismo, centralidades comerciais e forte especulação imobiliária, as áreas oeste e periféricas reúnem assentamentos precários, carências habitacionais e maiores déficits de serviços.

O eixo central e histórico, por sua vez, enfrenta perda de moradores e necessidade de requalificação, embora permaneça como polo administrativo e de serviços. Portanto, João Pessoa não vive apenas um problema quantitativo de infraestrutura; enfrenta também uma questão distributiva, pois o acesso a redes, equipamentos e oportunidades varia significativamente conforme o lugar de residência.

Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2022. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022 e Plano Diretor do Município de João Pessoa. João Pessoa: Prefeitura Municipal, 2024.


Entre os componentes da infraestrutura, o saneamento constitui um dos gargalos mais sensíveis. Os indicadores reunidos no diagnóstico apontam que 72,4% da população dispõe de acesso ao esgotamento sanitário. Isso significa que 27,6%, aproximadamente 245 mil pessoas, ainda dependem de fossas ou de redes consideradas precárias. Em uma cidade que se expande e adensa rapidamente, a permanência desse déficit afeta a saúde coletiva, a qualidade ambiental e as condições de moradia, além de comprometer rios, solos e áreas costeiras.

As perdas de água na rede, estimadas em 44,2%, também demonstram que o desafio não se resume à extensão da cobertura. A eficiência do sistema existente precisa ser enfrentada, pois uma parcela expressiva da água produzida não chega ao consumo faturado. O aumento da população e da atividade econômica tende a elevar a demanda sobre o abastecimento; por isso, reduzir perdas é tão importante quanto ampliar a rede. Sem essa combinação, o crescimento da cidade pode exigir investimentos cada vez maiores apenas para compensar ineficiências acumuladas.

A drenagem pluvial apresenta quadro igualmente preocupante. O levantamento registra 15 eventos críticos de inundação em cinco anos e aponta baixo investimento em macrodrenagem nas áreas de expansão sul. A verticalização, o adensamento e a abertura de novos loteamentos aumentam a impermeabilização, enquanto a ocupação de áreas vulneráveis expõe parcelas da população a alagamentos e outros riscos. Nessa situação, chuvas intensas não são a única causa dos episódios críticos: seus efeitos são agravados pela forma de ocupação do solo, pela insuficiência das redes e pela ausência de intervenções antecipadas.

As limitações da infraestrutura se articulam ao problema habitacional. O Plano Diretor identifica Zonas Especiais de Interesse Social, assentamentos precários e ocupações em áreas vulneráveis, reconhecendo que parte da população vive em condições desiguais no território. Moradia inadequada e déficit habitacional não constituem problemas isolados: frequentemente aparecem associados à insuficiência de saneamento, dificuldades de mobilidade, acesso desigual a serviços e equipamentos públicos e maior vulnerabilidade socioambiental. A expansão periférica sem infraestrutura adequada pode aprofundar a segregação socioespacial. Famílias de menor renda tendem a ocupar áreas mais distantes, ambientalmente frágeis ou pouco atendidas, enquanto regiões valorizadas concentram investimentos, empregos e serviços. O custo dessa desigualdade aparece no tempo de deslocamento, na exposição a riscos, na precariedade habitacional e na dificuldade de acesso a oportunidades. Assim, a elevação do PIB e a atração de investimentos não se convertem automaticamente em melhoria generalizada da qualidade de vida.

A experiência recente de João Pessoa indica que crescimento econômico, crescimento populacional e desenvolvimento urbano não são sinônimos. A cidade ampliou sua centralidade na Paraíba e se tornou destino de novos moradores, empresas e investimentos. Contudo, a infraestrutura não acompanhou integralmente esse movimento. O déficit de esgotamento sanitário, as perdas na distribuição de água, os eventos de inundação e a expansão periférica revelam restrições capazes de comprometer os próprios benefícios econômicos associados à expansão.

Referências

IBGE. Censo Demográfico 2010. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2010.

IBGE. Censo Demográfico 2022. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022.

IBGE. Produto Interno Bruto dos Municípios 2023. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023.

JOÃO PESSOA. Lei Complementar nº 169, de 11 de janeiro de 2024. Institui o Plano Diretor do Município de João Pessoa. João Pessoa: Prefeitura Municipal, 2024.

SONDAGEMPB. Infraestrutura urbana: entre avanços e desigualdades que persistem. João Pessoa, 2026. Apresentação.



 
 
 

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