Desenvolvimento humano em João Pessoa entre avanços e desigualdades

Autores:
Heloisa Gomes C. da Silva
Cauã Figueira Fiuza
Wanderleya dos Santos Farias
setembro/2026

João Pessoa expandiu sua economia, recebeu novos moradores e fortaleceu sua posição como centro de serviços na fase mais recente. Esse movimento, porém, não eliminou desigualdades antigas. Desenvolvimento humano não se mede apenas pelo crescimento da renda ou do Produto Interno Bruto. Ele envolve a possibilidade concreta de viver com saúde, aprender, trabalhar e participar da vida social. Por isso, os indicadores educacionais e de saúde ajudam a observar quem se beneficia da expansão da cidade e onde permanecem barreiras ao bem-estar.
Os dados de renda mostram a dimensão do problema. Em 2023, segundo a PNADC, os 10% mais ricos de João Pessoa recebiam, em média, R$ 26.070 mensais, enquanto a renda média dos 40% mais pobres era de R$ 972. A razão entre os dois grupos chegava a 26,8 vezes, acima da Paraíba, do Nordeste e do Brasil. O índice de Gini, de 0,629, colocava a capital na pior posição entre as capitais brasileiras no levantamento utilizado pelo diagnóstico.

Fonte: PNAD Contínua, 2023.
A concentração da renda afeta o desenvolvimento humano porque condiciona o acesso à alimentação, à moradia adequada, ao transporte e aos serviços públicos. Quando educação e saúde não compensam essas diferenças, o crescimento econômico pode ampliar oportunidades para alguns grupos sem modificar as condições de vida de uma parcela expressiva da população.
A desigualdade, portanto, não aparece somente no rendimento; ela também se manifesta na possibilidade de aprender e de receber cuidado no momento necessário. Na educação, João Pessoa apresenta uma situação que exige leitura cuidadosa.
A infraestrutura das escolas públicas municipais supera a média paraibana nos quatro indicadores analisados. Em 2023, 47% das escolas dispunham de biblioteca, 34% de laboratório de informática, 18% de laboratório de ciências e 39% de quadra esportiva. Em três desses itens, os resultados também estavam acima da média nacional; no caso das quadras, coincidiam com o percentual do país. O avanço material, contudo, ainda não se converte integralmente em aprendizagem e permanência. O Ideb da rede municipal foi de 5,2 nos anos iniciais e caiu para 4,1 nos anos finais do ensino fundamental. A distorção idade-série atingiu 14,6% nos anos iniciais e 29% nos anos finais.

Fontes: Censo Escolar, Saeb, Ideb e Indicador de Distorção Idade-Série, INEP, 2023 e 2025.
Essa diferença mostra que as dificuldades se acumulam ao longo da trajetória escolar, com reprovação, atraso e risco de abandono mais elevados entre os estudantes mais velhos. O analfabetismo reforça esse quadro. Embora a taxa da Região Metropolitana de João Pessoa tenha recuado de 8,3% em 2016 para 7% em 2025, permaneceu como a segunda maior entre as regiões metropolitanas consideradas, atrás apenas de Maceió. A redução é relevante, mas insuficiente para superar um problema estrutural que restringe o acesso ao trabalho, à informação, aos serviços digitais e à participação cidadã.
Na saúde, a Atenção Básica alcançou cobertura estimada de 85,3% da população de João Pessoa em 2024, o equivalente a aproximadamente 586,2 mil pessoas potencialmente atendidas pelas equipes. As Unidades de Saúde da Família constituem a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde e desempenham papel central na prevenção, no acompanhamento de doenças crônicas e na vacinação.

A cobertura elevada representa um ponto positivo, mas não garante acesso contínuo. Horários limitados, distância, dificuldades de deslocamento e rotina de trabalho podem impedir que as famílias utilizem os serviços quando precisam.
Os indicadores de imunização ilustram essa diferença: a vacinação contra poliomielite aparece próxima da meta nacional, a pentavalente encontra-se em recuperação e a vacinação infantil contra influenza apresenta baixa adesão. O desafio não se limita a organizar campanhas; envolve manter o vínculo das famílias com o cuidado preventivo durante todo o ano.
O enfrentamento dessas diferenças ultrapassa a capacidade de uma única política ou esfera de governo. Medidas nacionais relacionadas à tributação, às transferências de renda, ao salário mínimo, à previdência e à geração de empregos afetam a distribuição da renda e a proteção social. No plano municipal, a gestão do Cadastro Único, o acompanhamento das famílias, a qualificação profissional e o apoio aos pequenos negócios podem reduzir vulnerabilidades e ampliar oportunidades.
Essa articulação precisa alcançar os serviços cotidianos. A permanência na escola depende da renda familiar, do transporte, da alimentação e do acompanhamento pedagógico. Do mesmo modo, a prevenção em saúde exige unidades próximas, horários compatíveis com a vida dos trabalhadores e ações continuadas de vacinação. Educação e saúde produzem resultados melhores quando dialogam com assistência social, planejamento urbano e políticas de trabalho e renda.
Exemplos de instrumentos complementares de redução das desigualdades

Os indicadores revelam uma cidade com capacidade de investimento e avanços institucionais, mas marcada por resultados desiguais. A infraestrutura escolar melhorou sem eliminar dificuldades de aprendizagem; a cobertura da Atenção Básica se ampliou sem assegurar acesso permanente; e a renda cresceu de forma concentrada.
Essas contradições mostram que políticas isoladas não bastam. Educação, saúde, assistência social, mobilidade e geração de renda precisam atuar de forma articulada, com prioridade para os territórios e grupos mais vulneráveis. O desenvolvimento humano de João Pessoa dependerá menos da simples expansão de serviços e mais da qualidade, continuidade e distribuição dessas oportunidades. Crescer é importante, mas o avanço somente se transforma em desenvolvimento quando reduz desigualdades e permite que diferentes parcelas da população usufruam, de fato, do direito de aprender, cuidar da saúde e construir uma vida com autonomia.
Referências
IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. Indicadores de rendimento e analfabetismo. 2023 e 2025.
INEP. Censo Escolar 2023; Saeb e Ideb 2023; Indicador de Distorção Idade-Série 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. e-SUS APS, Programa Nacional de Imunizações e DATASUS. Dados de 2024.
JOÃO PESSOA. Secretaria Municipal de Saúde. Indicadores da Atenção Básica. 2024.
SONDAGEMPB. Desigualdade social, educação e saúde básica em João Pessoa. João Pessoa, 2026. Apresentações e diagnóstico.





Comentários