Mobilidade urbana: por que é tão difícil se deslocar em João Pessoa?

Autores:
Luiz Francisco P. Cordeiro
Vinicius Luccas de Oliveira
Wanderleya dos Santos Farias
outubro/2026

João Pessoa ganhou projeção econômica, atraiu moradores e ampliou sua área urbana. Entre 2010 e 2022, a população passou de 723.515 para 833.932 habitantes, aumento de 15,3%. A expansão fortaleceu a cidade como centro de serviços, comércio, turismo, educação e saúde, mas também multiplicou os deslocamentos entre bairros, municípios vizinhos e áreas de emprego.
A infraestrutura de mobilidade, contudo, não avançou na mesma velocidade. Em 2024, a capital possuía aproximadamente 470 mil veículos automotores. A proporção, que era de cerca de um veículo para cada três habitantes em 2010, aproximou-se de um para cada dois habitantes na fase recente.
Segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito - SENATRAN, a frota de veículos cresceu em torno de 115% na capital paraibana no período considerado, enquanto a população aumentou pouco mais de 15%. A diferença ajuda a explicar por que corredores como a Avenida Epitácio Pessoa e a BR-230 operam sob pressão crescente.

O congestionamento não decorre somente do número de veículos. A expansão de áreas residenciais distantes dos principais polos de trabalho e serviços ampliou a extensão das viagens. Sem alternativas coletivas rápidas e articuladas, automóveis e motocicletas se tornam respostas individuais a uma organização urbana que separa moradia, emprego e equipamentos públicos. O ganho privado de conveniência produz custos compartilhados: mais tempo no trânsito, poluição, acidentes e ocupação intensiva do espaço viário.
O sistema de ônibus alcança parte expressiva da cidade, mas mantém desenho predominantemente radial, com forte convergência para o centro e concentração em poucos corredores. Esse modelo dificulta viagens entre bairros periféricos e pode obrigar o passageiro a realizar conexões ou percursos longos. A cobertura formal, portanto, não significa necessariamente acesso rápido e adequado. A pouca prioridade no espaço viário agrava o problema. Com número limitado de faixas exclusivas, os ônibus disputam as mesmas vias com o tráfego geral e perdem regularidade nos horários de pico. O usuário suporta não apenas a tarifa, mas também espera, conexões e viagens demoradas. À medida que o serviço perde atratividade, quem dispõe de recursos migra para soluções individuais; o aumento da frota, por sua vez, torna o ônibus ainda mais lento. Forma-se um círculo que enfraquece o transporte público.
João Pessoa aparece entre as dez capitais com maior participação da infraestrutura cicloviária na malha viária, mas ocupa a última posição desse grupo. Seus 3% representam avanço, sobretudo pela ciclovia da orla e por trechos implantados em outros pontos. A comparação revela, porém, o caminho ainda necessário: Fortaleza alcança 8,3%, quase três vezes a proporção pessoense.

Fonte: Mobilidados, 2024
A extensão total não informa, sozinha, a qualidade da rede. Para funcionar como meio cotidiano de transporte, ciclovias e ciclofaixas precisam ser contínuas, seguras e conectadas a bairros, terminais e áreas de emprego. A mesma lógica vale para as calçadas: irregularidades, obstáculos, pouca arborização e travessias inseguras limitam o deslocamento a pé e atingem com maior intensidade idosos, pessoas com deficiência e moradores que dependem do transporte coletivo.
As motocicletas ganharam espaço pelo menor custo de aquisição e manutenção, pela agilidade em vias congestionadas e pela expansão dos serviços de entrega. Para muitos trabalhadores, a moto cumpre dupla função: meio de deslocamento e instrumento de renda. Sua ascensão responde, portanto, tanto às mudanças no mercado de trabalho quanto às deficiências do transporte coletivo. Essa solução individual tem consequências coletivas. O Hospital Estadual de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena registrou crescimento dos atendimentos por politraumatismo: de cerca de 3.200 em 2015 para 5.100 em 2023. Os motociclistas representam 79% dos atendimentos relacionados aos modos de transporte, evidenciando uma crise que ultrapassa o trânsito e pressiona o sistema de saúde.

Fonte: HEETSHL, Governo da Paraíba
Acidentes aumentam a demanda por leitos, cirurgias e reabilitação. Também provocam afastamentos do trabalho, perda de renda, sequelas permanentes e custos para as famílias. Surge uma das contradições mais duras da mobilidade pessoense: o modal de transporte que reduz o tempo individual de viagem e viabiliza atividades de entrega é o mesmo que concentra os riscos mais graves de trauma.
João Pessoa cresceu e ampliou sua centralidade regional, mas esse dinamismo veio acompanhado de uma mobilidade cada vez mais pressionada. A frota avançou mais que a população; o transporte coletivo permaneceu pouco competitivo; a motocicleta ocupou o espaço deixado por alternativas insuficientes; e pedestres e ciclistas ainda encontram redes incompletas. Os dados mostram que crescimento econômico e urbano não se convertem automaticamente em melhores condições de deslocamento.
Enfrentar essas contradições exige dar prioridade ao transporte coletivo, integrar linhas e modos, ampliar calçadas e ciclovias conectadas, gerir velocidades e proteger motociclistas. O objetivo não deve ser apenas fazer o trânsito fluir, mas permitir que moradores de diferentes bairros e rendas acessem trabalho, escola, saúde e lazer com segurança e em tempo razoável. A qualidade do crescimento de João Pessoa dependerá, cada vez mais, da capacidade de transformar mobilidade em direito à cidade.
Referências
BRASIL. Secretaria Nacional de Trânsito. Frota de veículos 2024. Brasília, DF: SENATRAN, 2024.
IBGE. Censo Demográfico 2010 e Censo Demográfico 2022. Rio de Janeiro: IBGE.
JOÃO PESSOA. Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana. Dados do transporte coletivo. João Pessoa: SEMOB, s.d.
MOBILIDADOS. Indicadores de mobilidade urbana: infraestrutura cicloviária nas capitais brasileiras. 2024.
PARAÍBA. Hospital Estadual de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena. Atendimentos por politraumatismo. João Pessoa: Governo da Paraíba.





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