João Pessoa cresce, mas como e para quem? Um retrato da economia e do mercado de trabalho

Autores:
Vitória Samara N. Higino
Igor Oliveira Abreu
Wanderleya dos Santos Farias
setembro/2026

João Pessoa ocupa posição central na economia paraibana. Segundo a pesquisa Produto Interno Bruto dos Municípios do IBGE, em 2023, a capital da Paraíba liderou o ranking dos municípios do estado com maior participação entre os dez maiores Produtos Internos Brutos (PIBs) municipais, concentrando 47,6% da riqueza produzida pelo grupo.
O resultado confirma a importância da cidade como polo de comércio, serviços, administração pública, educação, saúde, turismo e investimentos. Esse protagonismo, entretanto, precisa ser analisado com atenção. João Pessoa cresceu economicamente entre 2010 e 2023, mas o avanço foi marcado por ciclos de expansão, desaceleração e retomada. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho apresenta forte concentração em atividades de serviços e comércio, além de taxas elevadas de informalidade na Região Metropolitana.
A questão central, portanto, não é apenas saber se a cidade cresce, mas compreender como esse crescimento acontece, quais setores o sustentam e quem consegue se beneficiar das oportunidades geradas.
Participação dos municípios no grupo dos dez maiores PIBs da Paraíba em 2023

Fonte: IBGE, Produto Interno Bruto dos Municípios 2022–2023.
A análise da evolução do PIB pessoense entre 2010 e 2023 mostra que a economia municipal cresceu, mas não de forma contínua. Considerando os valores deflacionados pelo deflator implícito do PIB nacional, com ano-base em 2023, o produto municipal passou de aproximadamente R$ 24,5 bilhões, em 2010, para R$ 26,1 bilhões, em 2023. O crescimento acumulado no período foi de 6,7%. Embora positivo, o resultado indica uma expansão moderada diante do intervalo de treze anos.
A trajetória revela que a economia local enfrentou momentos de perda de dinamismo, especialmente entre 2015 e 2020, período marcado pela recessão econômica, instabilidades fiscais e pelos impactos da pandemia.
A retomada ocorreu entre 2020 e 2023, quando o PIB voltou a apresentar crescimento. Esse movimento acompanhou a recuperação das atividades de comércio, serviços, construção civil, turismo e consumo, além da reabertura gradual da economia.
Evolução do PIB municipal, em valores constantes de 2023
(valores deflacionados pelo deflator implícito do PIB nacional)

Fonte: IBGE, Produto Interno Bruto dos Municípios 2022–2023.
A estrutura produtiva de João Pessoa é fortemente concentrada no setor terciário. Comércio, turismo, serviços pessoais, serviços empresariais, educação, saúde e administração pública formam a base da economia municipal.
Entre 2010 e 2021, os serviços permaneceram como o principal componente do Valor Adicionado Bruto (VAB) de João Pessoa. A administração pública também aparece como importante fonte de renda e emprego, especialmente por meio da educação pública, da saúde pública e dos serviços governamentais.
A indústria possui participação complementar. Embora inclua atividades relevantes, como construção civil, transformação industrial e produção de bens e insumos, sua presença é menor do que a dos serviços. Já a agropecuária representa aproximadamente 1% do VAB municipal, resultado compatível com o perfil predominantemente urbano da capital. Essa composição oferece vantagens, como a diversificação de atividades ligadas ao consumo, ao turismo e aos serviços especializados. Porém, também impõe limites. Uma economia muito dependente do setor terciário pode apresentar maior sensibilidade às variações de renda, ao nível de consumo das famílias e às condições do mercado de trabalho.
A baixa participação industrial também reduz a capacidade de gerar empregos de maior produtividade e de ampliar cadeias produtivas locais. Por isso, o desafio não é abandonar a vocação de serviços, mas combiná-la com inovação, qualificação profissional, tecnologia e maior agregação de valor.
Os dados do Novo Caged reforçam a centralidade dos serviços e do comércio na economia local. Em 2025, os dois setores reuniam 79,5% do estoque de empregos formais de João Pessoa.
Distribuição % do estoque de emprefo formal por atividade econômica no município de João Pessoa/PB em 2025

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Novo Caged, 2025.
Os serviços respondiam por 57,7% das carteiras assinadas, enquanto o comércio representava 21,8%. A construção civil, por sua vez, concentrava 12,7%, acompanhando o ritmo dos investimentos, dos lançamentos imobiliários e da expansão urbana. A indústria participava com 7,4% do estoque formal. Essa distribuição mostra que o mercado de trabalho pessoense está diretamente relacionado ao perfil urbano da cidade. A expansão do turismo, da rede hoteleira, da alimentação, da educação, da saúde, dos serviços empresariais e das atividades imobiliárias cria oportunidades, mas também produz diferentes níveis de remuneração, estabilidade e qualificação.
A construção civil ocupa posição estratégica nesse processo. O setor gera empregos e movimenta fornecedores, materiais, transporte e serviços especializados. Ao mesmo tempo, sua dinâmica depende do ciclo de investimentos e pode ser mais instável quando há redução de lançamentos ou de obras.
Já o enfraquecimento da base industrial limita a produtividade agregada do município. A indústria costuma gerar encadeamentos produtivos, estimular a inovação e criar demanda por trabalhadores técnicos. A ampliação desse segmento, portanto, poderia contribuir para reduzir a dependência de atividades de menor produtividade e ampliar a diversidade econômica.
Apesar da força do emprego formal, uma parcela significativa dos trabalhadores permanece fora das relações tradicionais de contratação. Dados da PNAD Contínua indicam que, em 2024, a taxa de informalidade na Região Metropolitana de João Pessoa ficou entre 42% e 45%.
No mesmo período, a taxa de desocupação foi estimada entre 7% e 8%. Os indicadores revelam que o problema do mercado de trabalho não está apenas na falta de vagas, mas também na qualidade e na proteção oferecidas pelas ocupações existentes.
A informalidade alcança trabalhadores do comércio ambulante, dos serviços na orla, das atividades autônomas, do trabalho por aplicativo e de outras ocupações sem registro. Para muitas pessoas, essas atividades representam uma alternativa imediata de geração de renda. Porém, também podem significar ausência de férias remuneradas, décimo terceiro salário, contribuição regular para a Previdência Social, seguro-desemprego e maior instabilidade.
Os dados mostram, portanto, uma economia que cresceu e preservou a centralidade de João Pessoa no cenário paraibano, mas que ainda convive com contradições importantes. A expansão dos serviços, do comércio, da construção civil e de outras atividades urbanas ampliou as oportunidades de trabalho e fortaleceu o dinamismo da cidade. Esse movimento, contudo, não se traduziu de maneira uniforme em ocupações mais estáveis, protegidas e produtivas. A elevada informalidade, a dependência de atividades sensíveis às oscilações da renda e do consumo e a participação reduzida da indústria revelam os limites desse crescimento. O desafio para João Pessoa, portanto, não é apenas continuar crescendo, mas transformar sua expansão econômica em empregos de melhor qualidade, maior proteção social e oportunidades mais amplamente distribuídas entre os trabalhadores.
Referências
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Novo Caged: painel de informações. Brasília, DF: Ministério do Trabalho e Emprego, [s.d.]. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/estatisticas-trabalho/novo-caged. Acesso em: 05 abr. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA — IBGE. Produto Interno Bruto dos Municípios 2022–2023. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais/9088-produto-interno-bruto-dos-municipios.html. Acesso em: 12 jun. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA — IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua — PNAD Contínua. Rio de Janeiro: IBGE, [s.d.]. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/17270-pnad-continua.html. Acesso em: 18 jul. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA — IBGE. Sistema de Contas Nacionais: Brasil 2023. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais/9052-sistema-de-contas-nacionais-brasil.html. Acesso em: 20 ago. 2026.





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